Quando o corpo desacelera e a alma continua desperta

Será que, quando o corpo desacelera e os dias vão ganhando outro ritmo, a alma ainda deseja compreender o que vive e o que já viveu?

Pensar sobre isso me faz lembrar da história de um antigo rei que mandou cada um de seus quatro filhos visitar a mesma árvore de cerejeira em diferentes estações do ano. O primeiro voltou pensativo e disse que a árvore estava cheia de galhos secos, parecia sem vida. O segundo, indo em outra estação, contou que a árvore estava coberta de flores delicadas, rodeada de abelhas e borboletas. Que a beleza era tanta, que deixou seu dia mais alegre.

Passado algum tempo, o terceiro voltou dizendo que a mesma árvore estava carregada de cerejas vermelhas e doces, disputadas pelos pássaros. E o quarto, visitando-a por último, disse que viu folhas douradas, laranjas e vermelhas, como se a árvore inteira tivesse virado uma pintura viva. Então, o rei explicou aos filhos que cada um tinha razão, mas nenhum deles tinha visto a árvore inteira. Pois cada estação revela um rosto diferente da mesma vida, e todas fazem parte dela.

Talvez a nossa vida seja parecida. Há tempo de florir e tempo de recolher. Tempo de dar frutos, e tempo de deixar as folhas cair. E depois de muitas estações, passamos a perceber a própria paisagem interior. As experiências ganham outra densidade, o ritmo externo já não dita todas as regras, e o ruído do mundo dá lugar ao silêncio necessário para as perguntas que agora ganham outro peso.


Psicóloga com ampla experiência no tratamento de ansiedade

“Acredito que sem humildade, não há autoconhecimento verdadeiro.”

Dayse Hirakawa



E é justamente nesse tempo que a psicoterapia pode ter um papel importante. Muitos acreditam que ela serve apenas para tratar sintomas, quando na verdade é também um espaço de autoconhecimento, integração e sentido. Nesse percurso, a psicoterapia ajuda a reorganizar memórias, a lidar com perdas, a fortalecer vínculos familiares e a cultivar serenidade diante das mudanças inevitáveis. E, para muitos, esse processo se torna um modo de reencontrar propósito, autonomia e tranquilidade.

É como se, ao olhar para dentro, a alma encontrasse um caminho que sobe em silêncio e que parte do que é sensível seguindo em direção ao que é mais profundo, até chegar ao essencial. São Boaventura, em seu Itinerário da Mente para Deus, descreve a caminhada interior como uma subida que começa nos sentidos, passa pela razão e alcança a contemplação. É um percurso de amadurecimento que não se mede por idade, mas por profundidade, um movimento da alma em direção ao seu centro e ao seu sentido mais alto.

Esse mesmo movimento se manifesta, em outro plano, na experiência humana do cuidado da alma. Quando São Boaventura fala da ascensão que parte dos sentidos e se eleva até a contemplação, descreve algo que também se reflete, à sua maneira, no processo psicoterapêutico: a passagem do sentir ao compreender, e do compreender ao integrar. E essa integração, de algum modo, já é ordenar e também um ato de sabedoria.

Assim, podemos pensar que a psicoterapia seja como olhar de novo a mesma árvore, agora com olhos que já viram todas as estações. Não como um recomeço, mas como um retorno ordenado: o reconhecimento de que cada fase teve sua beleza e sua razão de ser. E então perceber que a alma não se mede pelo tempo do corpo, mas pela ordem que vai adquirindo ao longo da vida. Logo, o cuidado com a alma também tem o seu tempo, e ele nunca se perde.

Referências e inspirações

  • Boaventura, S. (1999). Itinerário da mente para Deus (C. L. Mendoza, Trad.). Paulus.
  • Agostinho, S. (2021). A ordem (E. C. Pereira, Trad.). Paulus.
  • Frankl, V. E. (2016). A vontade de sentido: Fundamentos e aplicações da logoterapia. Paulus.
  • Parábola das quatro estações. (n.d.). In Contos da tradição sapiencial.
Anterior
Próximo

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Conteúdos recentes:

  • 1

Está gostando do conteúdo?

© 2025 Dayse Hirakawa | Psicóloga e Neuropsicóloga | CRP 06/137123 – Todos os direitos reservados