Será que, quando o corpo desacelera e os dias vão ganhando outro ritmo, a alma ainda deseja compreender o que vive e o que já viveu? Quando eu comecei a atender, lá em 2017, meus primeiros clientes oficiais eram sempre muito novos. Jovens adultos querendo escrever sua própria história, sem ignorar o passado, mas também sem ser refém dele. Algum tempo depois, pessoas mais vividas, com dores da vida adulta, passaram a ser a maioria nos meus atendimentos.
Pensar sobre isso me faz lembrar da história de um antigo rei que mandou cada um de seus quatro filhos visitar a mesma árvore de cerejeira em diferentes estações do ano. O primeiro voltou pensativo e disse que a árvore estava cheia de galhos secos, parecia sem vida. O segundo, indo em outra estação, contou que a árvore estava coberta de flores delicadas, rodeada de abelhas e borboletas. Que a beleza era tanta que deixou seu dia mais alegre.
Passado algum tempo, o terceiro voltou dizendo que a mesma árvore estava carregada de cerejas vermelhas e doces, disputadas pelos pássaros. E o quarto, visitando-a por último, disse que viu folhas douradas, laranjas e vermelhas, como se a árvore inteira tivesse virado uma pintura viva. Então, o rei explicou aos filhos que cada um tinha razão, mas nenhum deles tinha visto a árvore inteira. Pois cada estação revela um rosto diferente da mesma vida, e todas fazem parte dela.
Talvez a nossa vida seja parecida. Há tempo de florir e tempo de recolher. Tempo de dar frutos e tempo de deixar as folhas caírem. E depois de muitas estações, passamos a perceber a própria paisagem interior. As experiências ganham outra densidade, o ritmo externo já não dita todas as regras, e o ruído do mundo dá lugar ao silêncio necessário para as perguntas que agora ganham outro peso.

Psicóloga com ampla experiência no tratamento de ansiedade
“Acredito que sem humildade, não há autoconhecimento verdadeiro.”
Dayse Hirakawa
Depoimentos reais de pessoas que já foram atendidas por mim
Será que neste momento a psicoterapia ainda faz sentido? Veja, durante muito tempo, a psicoterapia acabou sendo associada apenas ao tratamento de sintomas. Só que, em muitos momentos da vida, ela também se torna espaço de elaboração, reconciliação e sentido. Ela ajuda a reorganizar memórias, lidar com perdas, fortalecer vínculos familiares e cultivar serenidade diante das mudanças inevitáveis, enquanto a pessoa aprende, aos poucos, a habitar o próprio ritmo. E, para muitos, esse processo se torna um modo de reencontrar propósito, autonomia e tranquilidade. É como se, ao olhar para dentro, a alma encontrasse um caminho silencioso que parte do sensível em direção ao que é mais profundo, até chegar ao essencial.
Há algo nesse processo que pensadores muito anteriores à psicoterapia tal como a conhecemos hoje já descreviam. São Boaventura, em seu Itinerário da Mente para Deus, descreve a caminhada interior como uma subida que começa nos sentidos, passa pela razão e alcança a contemplação. É um percurso de amadurecimento que não se mede por idade, mas por profundidade, um movimento da alma em direção ao seu centro e ao seu sentido mais alto.
Esse mesmo movimento se manifesta, em outro plano, na experiência humana do cuidado da alma. Quando São Boaventura fala da ascensão que parte dos sentidos e se eleva até a contemplação, descreve algo que também se reflete, à sua maneira, no processo psicoterapêutico: a passagem do sentir ao compreender, e do compreender ao integrar. E essa integração, de algum modo, já é ordenar e também um ato de sabedoria.
Assim, podemos pensar que a psicoterapia seja como olhar de novo a mesma árvore, agora com olhos que já viram todas as estações. Como um retorno ordenado: o reconhecimento de que cada fase teve sua beleza e sua razão de ser. E então perceber que a alma não se mede pelo tempo do corpo, mas pela ordem que vai adquirindo ao longo da vida. Por isso, sim, o cuidado com a alma também tem o seu tempo, e ele nunca se perde.
Referências e inspirações
- Boaventura, S. (1999). Itinerário da mente para Deus (C. L. Mendoza, Trad.). Paulus.
- Agostinho, S. (2021). A ordem (E. C. Pereira, Trad.). Paulus.
- Frankl, V. E. (2016). A vontade de sentido: Fundamentos e aplicações da logoterapia. Paulus.
- Parábola das quatro estações. (n.d.). In Contos da tradição sapiencial.


