A ansiedade costuma ser associada à preocupação excessiva com o futuro. Mas essa definição, embora não esteja errada, diz pouco sobre o que acontece na experiência concreta de quem convive com ela. O que se observa, no cotidiano, não é apenas alguém que pensa demais no amanhã, mas alguém cuja atenção, pensamento e energia psíquica permanecem quase sempre projetados à frente, resolvendo, antecipando, tentando prevenir algo que ainda não existe. O corpo está no presente, mas a vida interior raramente permanece nele.
Esse deslocamento contínuo tem efeitos concretos. O descanso não repara. O lazer vem acompanhado de inquietação. Mesmo quando nada parece exigir resposta imediata, há uma sensação persistente de urgência, como se algo estivesse sempre pendente. A mente não repousa; ela vigia. Com o tempo, viver assim cobra um preço. O cansaço se acumula, a tensão se torna constante e o presente passa a ser vivido não como o lugar onde a vida acontece, mas como um intervalo estreito entre preocupações e cenários imaginados.
A ansiedade, nesse sentido, não se revela apenas como preocupação com o futuro, mas como um afastamento progressivo do presente. O futuro passa a ocupar tanto espaço que o agora quase não se sustenta. E, quando o presente deixa de ser habitado, a ansiedade encontra terreno fértil para se manter. Mas, afinal, o que torna o presente tão difícil de sustentar que a mente insiste em se projetar para o que ainda não existe?
Neste artigo, você vai encontrar:
- Sempre à frente, nunca aqui
- Pensar o futuro não é o problema
- O alarme que nunca desliga
- O engano silencioso da ansiedade
- Viver o presente

Psicóloga com ampla experiência no tratamento de ansiedade
“Acredito que tratar a ansiedade é atravessar do caos para a ordem. Do impulso para a presença. Do medo para a segurança que permanece.”
Dayse Hirakawa
Depoimentos reais de pessoas que já foram atendidas por mim
Sempre à frente, nunca aqui
Conviver com a ansiedade é viver com a sensação de estar sempre um passo atrás da própria vida, como se o tempo estivesse permanentemente em falta e algo ruim estivesse prestes a acontecer. A mente se antecipa ao que ainda não aconteceu, não como exercício de planejamento, mas como uma tentativa contínua de prevenção. O presente deixa de ser um espaço de ação possível e passa a ser apenas um ponto de passagem entre o que já foi e o que pode vir a ser.
Nesse funcionamento, o agora raramente é suficiente. Ele parece pequeno, instável ou até perigoso demais para sustentar a atenção. Quando se tenta repousar no presente, o pensamento rapidamente se desloca: abrem-se múltiplas janelas mentais do que falta fazer, do que pode dar errado, do que não pode ser esquecido.
Esse modo de funcionamento altera profundamente a experiência cotidiana. O descanso é interrompido por listas mentais. O lazer vem acompanhado de cobrança interna. O silêncio não é vivido como pausa, mas como convite à ruminação. Mesmo em ambientes e situações seguros, algo permanece em alerta, como se baixar a guarda fosse um risco. O futuro, então, deixa de ser apenas um horizonte e passa a ocupar o centro da vida psíquica, não como projeto, mas como ameaça difusa. A mente ensaia cenários, revisa possibilidades, tenta antecipar todas as variáveis.
Quando isso acontece, o presente deixa de ser reconhecido como o único lugar onde algo pode ser feito. A ação fica suspensa entre um passado já interpretado e um futuro imaginado. É aquela sensação de estar sempre se preparando, mas raramente vivendo.
Esse é um dos paradoxos centrais da ansiedade: quanto mais a mente tenta garantir segurança antecipando o futuro, mais o presente se torna condicional, instável e menos habitável. E é justamente essa instabilidade que alimenta o movimento contínuo de fuga para o futuro desconhecido.
Pensar o futuro não é o problema
Pensar o futuro faz parte do funcionamento humano. Antecipar, planejar, prever consequências e organizar ações a partir do que ainda não aconteceu é uma capacidade necessária para a vida adulta, para o trabalho, para os vínculos e para qualquer projeto minimamente estável. Sem isso, não haveria responsabilidade nem direção.
Na ansiedade disfuncional, porém, esse movimento deixa de servir ao presente e passa a dominá-lo. O futuro já não funciona como horizonte que orienta escolhas, mas como foco constante de vigilância. Não como algo a ser construído, mas como algo que precisa ser monitorado o tempo todo.
Quando isso acontece, possibilidades passam a ser tratadas como fatos. Hipóteses ganham peso de realidade. O “e se” deixa de ser uma pergunta aberta e se transforma em um aviso constante de perigo. A mente não está apenas considerando cenários; ela passa a vivê-los antecipadamente, como se já estivessem em curso, mesmo sem saber se algum deles, de fato, existirá.
O corpo responde a essa antecipação como se estivesse diante de algo concreto. A ativação fisiológica se instala, a atenção se estreita, o estado de alerta se mantém. É o mesmo mecanismo que explica por que o corpo reage ao assistir a um filme de terror ou ao vivenciar experiências de realidade virtual: o coração acelera, a respiração muda, os músculos se contraem, ainda que a pessoa saiba, racionalmente, que está segura. A resposta não depende apenas do que se sabe, mas de como o cérebro interpreta a experiência naquele instante.
Nesse ponto, o futuro já não funciona como um dos critérios para orientar escolhas no presente, mas como justificativa permanente para o controle, a antecipação e a tensão. Com isso, deixa-se de perguntar “o que posso fazer a partir daqui?” e o pensamento passa a se organizar sempre em torno de “como evito que algo dê errado?”.
O alarme que nunca desliga
Quando o corpo passa a funcionar como se algo estivesse sempre prestes a acontecer, a respiração tende a se tornar mais curta, a musculatura permanece tensionada e a atenção se estreita. Com o tempo, isso produz um cansaço que não se resolve com descanso, férias ou momentos pontuais de relaxamento. Pequenos estímulos ganham peso excessivo, e situações neutras passam a ser percebidas como exigentes ou ameaçadoras.
Mas esse estado contínuo de alerta não se mantém porque a pessoa “pensa errado” ou “exagera”. Ele se mantém porque o sistema nervoso aprende, por repetição, que antecipar é necessário para sobreviver. Quanto mais vezes o corpo reage a cenários futuros como se fossem ameaças presentes e reais, mais facilmente esse circuito é acionado.
É aqui que entra a neuroplasticidade. O cérebro se organiza a partir do uso. Padrões ativados com frequência tornam-se mais rápidos, mais automáticos e menos dependentes de avaliação consciente. Com o tempo, o organismo já não precisa de um motivo claro para entrar em tensão. A vigilância passa a funcionar como estado padrão. Não porque haja perigo real, mas porque foi assim que o corpo aprendeu a operar.
Por isso, em muitos quadros de ansiedade, a tensão não desaparece nem nos momentos de descanso. O repouso alivia o desgaste imediato, mas não reorganiza os circuitos que sustentam o estado de alerta. Enquanto esse padrão aprendido não começa a ser modificado, o corpo tende a retornar ao mesmo nível de ativação. E, nesse contexto, tentativas de “relaxar” ou “pensar diferente” costumam soar artificiais, quando não frustrantes.
O engano silencioso da ansiedade
Quem nunca ouviu, ou até repetiu, que é “melhor prevenir do que remediar”? Essa frase costuma ser usada para transmitir a importância da cautela, do planejamento e da prudência. Quando bem compreendida, ela de fato cumpre esse papel. O engano está em confundir prudência com antecipação permanente.
A pessoa sente que está “fazendo algo” ao pensar excessivamente, prever tudo e se preocupar com cada detalhe e possibilidade, quando, na prática, mantém o organismo em estado contínuo de alerta. A energia que poderia ser investida em escolhas possíveis no presente fica capturada pela tentativa ilusória de controlar um futuro que não está sob controle.
E, embora essa tentativa possa oferecer um alívio momentâneo e a sensação de estar vigilante, logo em seguida a tensão retorna, muitas vezes de forma mais intensa, exigindo novas rodadas de antecipação. Assim, o ciclo se fecha: quanto mais se antecipa na tentativa de controlar acreditando estar se protegendo, mais frágil se torna a própria capacidade de lidar com o que efetivamente acontece.
Esse é o engano silencioso: acreditar que a antecipação constante garante segurança, quando, na realidade, ela estreita o campo de ação no presente e enfraquece a confiança na própria capacidade de lidar com o que vier.
Viver o presente
Chegando até aqui, você já entendeu que viver o presente não é eliminar a ansiedade nem impedir que o futuro seja pensado. É aprender a não adiar a vida esperando que a mente se acalme. O presente se torna habitável quando se começa a agir a partir dele, e não a partir do medo do que ainda não existe.
Por isso, quero te propor um exercício. Sempre que perceber o início de uma antecipação ansiosa (aquele “e se…?” que puxa a mente para o futuro sem produzir ação concreta), você vai:
1) Voltar seus sentidos ao ambiente por pelo menos 30 a 60 segundos:
Mentalmente (ou em voz baixa), descreva três coisas que você vê, dois sons que percebe, uma sensação no corpo (onde está concentrado o peso do seu corpo, qual é a temperatura do ambiente, a textura da roupa). Se fizer sentido, note também um cheiro ou o ar entrando e saindo de suas narinas. A ideia aqui não é ‘relaxar’, nem eliminar a ativação, mas se ancorar no agora o suficiente para recuperar direção.
2) Perguntar a si mesmo:
“O que a realidade concreta deste momento me pede?” – uma ação possível, pequena e objetiva. Não uma solução para a vida inteira.
3) Refletir os fatos:
Questione a resposta que encontrou na etapa anterior com “o que me faz acreditar que este momento me pede isso?”. Então liste apenas os fatos observáveis. “Quais fatos sustentam essa conclusão? E quais fatos não sustentam (ou enfraquecem) essa conclusão?”.
Com isso, você começa a treinar uma distinção decisiva: o que é antecipação ansiosa (tentativa frustrada de garantir o futuro mentalmente) e o que é planejamento saudável (organizar o que está ao alcance com base em dados e ações possíveis). Sempre que puder, escreva esse exercício. A escrita reduz a nebulosidade, desacelera a espiral e torna o pensamento mais verificável.
Essa distinção entre a antecipação ansiosa e o planejamento saudável nos remete diretamente à prudência, que não é a ausência de medo, mas a virtude intelectual que nos permite deliberar corretamente sobre o que é bom e o que é mau para nós, no aqui e agora, e agir em conformidade. O exercício proposto nos ajuda a sair da imaginação ansiosa (que trata possibilidades como fatos) e a voltar para a realidade, o único lugar onde a vontade pode sustentar uma escolha verdadeiramente prudente e livre. Ao fazer isso, você não está apenas se acalmando; mas restaurando a ordem interior, devolvendo à razão o seu papel de guia e à emoção o seu papel de acompanhante.
Talvez o mais importante, a partir daqui, não seja tentar se sentir melhor, mas aprender a se conduzir mesmo quando a ansiedade aparece. Esse é um aprendizado possível (e profundamente libertador) quando feito com acompanhamento adequado.
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