Muitas pessoas que sofrem com ansiedade já desenvolveram um bom nível de compreensão sobre o próprio funcionamento: identificam gatilhos, reconhecem padrões de pensamento, entendem a antecipação do futuro e até conseguem nomear o que acontece no próprio corpo. Ainda assim, continuam presas ao mesmo ciclo de tensão, medo e exaustão, gerando frustração. E então surge a pergunta que não quer calar: “se eu já entendo o que está acontecendo, por que não consigo mudar?”.
Do ponto de vista psicológico, compreender a ansiedade é um passo importante. A psicoeducação ajuda a reduzir confusão, culpa e medo do próprio sintoma. Quando a pessoa entende que não está “enlouquecendo”, mas reagindo a um sistema de alerta hiperativado, parte do sofrimento associado à incompreensão da própria experiência diminui.
Pela lente neurobiológica, a ansiedade envolve sistemas automáticos de resposta à ameaça, que operam de forma rápida e não consciente. Esses circuitos não se reorganizam apenas por argumentos racionais ou boas explicações. Saber que “não há perigo real” não impede o corpo de reagir como se houvesse. A amígdala cerebral não espera a razão concluir para ativar o estado de alerta. Ela responde antes, preparando o organismo para agir.
Por isso, a pessoa pode saber que está antecipando demais, que não tem controle sobre tudo ou que está reagindo de forma desproporcional à situação, e, mesmo assim, continuar fazendo exatamente o mesmo. Não à toa, muitas pessoas dizem: “eu sei que não faz sentido, mas continuo sentindo.” Esse ponto é central: compreender, por si só, não é suficiente para mudar a forma como se vive e se responde à ansiedade.
Neste artigo, você vai encontrar:
- Autoconhecimento é processo, não destino
- O abismo entre a compreensão e a ação
- Esperar sentir-se bem para agir
- Da reação à condução: o verdadeiro ponto de virada
- Onde você está no processo e o que isso pede

Psicóloga com ampla experiência no tratamento de ansiedade
“Acredito que tratar a ansiedade não é apenas aliviar sintomas. É recuperar clareza no pensar, presença no sentir, direção para escolher e agir com constância.”
Dayse Hirakawa
Depoimentos reais de pessoas que já foram atendidas por mim
Autoconhecimento é processo, não destino
Depois de compreender como a ansiedade funciona, a expectativa costuma ser agir de forma diferente quase que de maneira imediata. Quando é isso que se espera, além da frustração vem a sensação de estar “empacada” no próprio processo.
Veja, compreender a ansiedade vai muito além de saber explicá-la em teoria: envolve aprender como ela se manifesta na própria vida concreta, como começa, quais sinais aparecem primeiro, em que situações tende a se intensificar e quais respostas costumam aliviar ou agravar o quadro. Algumas pessoas percebem a ansiedade primeiro no corpo, outras no pensamento acelerado; há quem só se dê conta quando já está irritada, exausta ou evitando decisões importantes. Aqui, mais do que psicoeducação, trata-se de aprender a reconhecer esses sinais iniciais, antes que a ansiedade ocupe todo o campo da experiência.
É a esse processo que chamamos de autoconhecimento, que também inclui discernir algo fundamental: nem toda estratégia ajuda em todo momento. O que funciona quando a ansiedade ainda está leve pode não funcionar quando o corpo já entrou em hiperativação. Há recursos que ajudam a conter, outros que ajudam a atravessar e outros que só fazem sentido depois, quando o estado de maior ansiedade já passou. Autoconhecimento não é acumular técnicas, mas aprender, sobretudo, quando e como melhor utilizá-las.
Embora a psicoeducação tenha um valor real, ajudando a reduzir confusão, culpa e medo dos sintomas, ela não encerra o processo psicoterapêutico. Da mesma forma, o autoconhecimento que permite entender a própria ansiedade não implica que ela deixará automaticamente de influenciar as escolhas, as reações e a forma de viver. Todo esse entendimento permite identificar gatilhos, reconhecer padrões de pensamento e compreender as reações do corpo, o que organiza a experiência interna, mas não substitui o exercício contínuo de sustentar escolhas diante do desconforto, da insegurança e da ansiedade.
Na prática clínica, quando essa expectativa se ajusta, algo importante muda. A pessoa deixa de cobrar de si uma transformação imediata baseada apenas no entendimento e começa a reconhecer que compreender é apenas o início, um dos primeiros passos do processo. A necessidade de encontrar culpados internos ou externos perde centralidade. E, a partir daí, o processo deixa de girar em torno da pergunta “por que continuo sentindo isso?” e começa a se deslocar para uma questão mais decisiva: “o que faço com o que estou sentindo?”.
O abismo entre a compreensão e a ação
Na ansiedade, a ação costuma ser guiada por impulsos de curto prazo: evitar o desconforto, aliviar a tensão, reduzir a sensação de ameaça. Na prática, isso se traduz na busca por alívios imediatos, mais acessíveis no momento. Pode ser um doce, uma série, o uso contínuo do celular, videogame ou outras formas de prazer rápido e compensatório, inclusive em experiências mais íntimas. Nessas horas, o organismo tende a recorrer aos caminhos já conhecidos, não aos mais adequados, mas aos mais familiares. Mesmo quando a pessoa sabe que adiar o enfrentamento mantém o ciclo ou que reagir impulsivamente traz prejuízos, a resposta automática insiste nesses atalhos. A compreensão existe, mas não conduz.
Agir de forma diferente, portanto, não é apenas escolher outra via. É tolerar o custo emocional dessa escolha. Sustentar uma ação mais adequada frequentemente significa permanecer por mais tempo no desconforto, na incerteza ou na frustração. E esse custo se torna ainda mais elevado para quem vive com o sistema de alerta frequentemente ativado.
O intervalo entre saber e fazer não é um simples “bloqueio”. Ele revela algo mais profundo: agir exige mais do que clareza; exige presença para conduzir. É aqui que muitos processos se tornam instáveis, podendo estagnar ou até ser interrompidos. A pessoa reconhece padrões, identifica gatilhos, entende o que acontece, mas, diante da situação concreta, reage como sempre reagiu. Não faz o que sabe que será melhor, mas o que consegue suportar naquele momento. O critério deixa de ser o valor da ação e passa a ser o nível de desconforto tolerável.
Por isso, atravessar o abismo entre compreensão e ação não depende de entender melhor, mas de aprender a sustentar escolhas quando o desconforto se impõe, mesmo quando a ansiedade se faz intensa. Enquanto esse treino não acontece, o conhecimento permanece como observador. Ele ilumina o processo, mas não altera o desfecho.
Esperar sentir-se bem para agir
Um dos erros mais comuns no enfrentamento da ansiedade é a ideia de que é preciso primeiro se sentir melhor para então agir de forma diferente. A pessoa espera a ansiedade diminuir, o medo passar, a segurança aparecer. Só depois disso acredita que conseguirá tomar decisões, se posicionar, retomar tarefas ou sustentar mudanças.
À primeira vista, essa lógica parece sensata. “Afinal, quem age bem quando está ansioso?”, costumam pensar. O que pode passar despercebido é que, ao esperar a emoção mudar para agir, reforça-se exatamente o padrão que a mantém fora de medida. Quando a ação fica condicionada ao estado emocional, a ansiedade passa a ditar o ritmo, os limites e as possibilidades da vida. A vida se organiza em torno do sentir, e não do que precisa ser feito.
É por isso que, fora dos momentos de maior intensidade e ativação, o trabalho psicoterapêutico não consiste em esperar a emoção mudar, mas em aprender a agir apesar dela. Não por negação, nem por força bruta, mas por condução.
Isso não significa ignorar os limites do organismo. A condução não se treina no pico da ativação fisiológica; ela se constrói fora dele. Quando o corpo entra em um estado intenso de alarme, as respostas automáticas predominam e a capacidade de escolha fica temporariamente reduzida. Nesse momento, não se trata de “agir melhor”, mas de atravessar esse estado com o menor desgaste possível.
Nos quadros em que há crises recorrentes, evitação ou medo antecipatório intenso, o processo psicoterapêutico costuma seguir etapas claras: primeiro, estabilizar; depois, ampliar a tolerância ao desconforto; e, então, iniciar enfrentamentos graduais. A dessensibilização não acontece de forma abrupta nem no auge da ativação ansiosa. Ela é progressiva, estruturada e respeita os limites do sistema nervoso. O objetivo não é provocar sofrimento, mas ensinar o organismo a suportar pequenas doses de desconforto sem colapsar.
Na prática, isso envolve reduzir estímulos, interromper tentativas de controle excessivo e permitir que o organismo saia gradualmente desse estado de alerta. Às vezes, significa se afastar da situação, sentar, ampliar a respiração, lavar o rosto, caminhar por alguns minutos ou simplesmente permanecer em silêncio até que o corpo recupere um nível mínimo de estabilidade. Quando necessário, o uso de medicação faz parte desse manejo. Superado esse momento, o eixo do processo retorna ao que realmente é capaz de colocar tudo no seu devido lugar: aprender a sustentar escolhas mesmo com desconforto presente.
Portanto, agir apesar da ansiedade não significa ignorar o que se sente, nem agir de forma impulsiva ou desorganizada, muito menos desconsiderar a intensidade dos sintomas. Significa reconhecer a emoção sem conceder a ela o lugar de comando ou transformá-la em critério absoluto de viabilidade da ação. Assim, o comportamento deixa de ser consequência do sentir e passa a ser uma escolha sustentada, mesmo com desconforto. É nesse momento que algo fundamental muda: a pessoa deixa de perguntar “como me sinto?” e começa a perguntar “o que precisa ser feito, mesmo me sentindo assim?”.
Essa mudança costuma gerar resistência. Agir com a ansiedade presente exige tolerância ao desconforto, à insegurança e à sensação de não estar pronta. Mas é justamente esse movimento que enfraquece o ciclo ansioso. Não porque a emoção desaparece, mas porque deixa de conduzir. E mesmo nos quadros mais intensos, o eixo do tratamento não é eliminar a ansiedade, mas retirar dela o comando da vida.
Esse é um dos pontos mais delicados do processo psicoterapêutico, e também um dos mais libertadores.
Da reação à condução: o verdadeiro ponto de virada
Tratar a ansiedade não significa sentir menos nem entender mais. Muitas pessoas compreendem bem o próprio funcionamento e reconhecem o que acontece quando a ansiedade aparece, mas continuam respondendo às mais diversas situações da vida a partir do mesmo padrão ansioso.
A emoção em si não é um inimigo a ser combatido. Ela faz parte da experiência humana e acompanha, inevitavelmente, a nossa relação com o futuro, com as incertezas e com as exigências da vida. Mas enquanto o comportamento é estruturado em função da ansiedade, ela assume o comando. Já quando a razão retoma o seu papel de condução, mesmo com a ansiedade acompanhando, a vida deixa de ser organizada pelo estado emocional do momento e muda a forma de se colocar diante da própria vida.
Talvez você esteja se perguntando o que isso significa, concretamente, no cotidiano. Veja: reagir é responder de forma imediata ao que se está sentindo no momento. É mirar na melhora, mas alcançar apenas alívio imediato, seja por evitação, compensação ou tentativas de neutralizar o desconforto o mais depressa possível. Conduzir, por outro lado, não significa ignorar a ansiedade nem tentar suprimi-la. Significa recolocá-la no lugar que lhe é próprio: acompanhante, não guia. Implica permitir que a razão e a vontade exerçam suas funções: avaliar a situação, decidir um rumo possível e sustentar essa decisão, mesmo quando o sentir não colabora.
Com essa virada, a pergunta que orienta o comportamento também muda. Já não é “como estou me sentindo?”, mas “o que preciso ou devo fazer, apesar do que estou sentindo agora?”. Eu sei que, à primeira vista, isso pode soar duro. Pode parecer exigente demais, frio ou até injusto para quem já está cansado dessa luta interna. Mas é importante compreender uma distinção fundamental: acolher a própria experiência emocional não é o mesmo que se tornar refém dela.
A emoção pode (e vai) estar presente. Em alguns momentos, pode até se fazer intensa. Ainda assim, é possível escolher não reagir em função dela. O comportamento passa a ser sustentado por critérios mais estáveis: valores, responsabilidades, compromissos e o modo mais alinhado com aquilo que se deseja semear na própria vida. Esse movimento não endurece. Ao contrário, devolve dignidade, direção e liberdade interior.
E, como pode imaginar, essa etapa não acontece de forma abrupta nem apenas intelectual. Ela se constrói no cotidiano, à medida que a pessoa aprende a sustentar escolhas mesmo quando o desconforto está presente. Isso aparece, por exemplo, quando se mantém um compromisso apesar da vontade intensa de desistir no dia e no horário marcados; quando se sustenta um “sim” ou um “não” necessário, ainda que desconfortável; quando se resiste ao impulso de recorrer ao celular durante uma atividade que exige presença ou precisa ser concluída; quando se permanece firme mesmo com a vontade quase física de sair correndo. Em todas essas situações, a ansiedade está presente, gera desconforto, mas não é transformada automaticamente em ação compensatória.
É nesse ponto que muitos relatam algo novo: a ansiedade pode até aparecer, mas já não paralisa da mesma forma. Não porque a emoção tenha desaparecido, mas porque a pessoa fortaleceu a capacidade de se conduzir apesar dela. A vida deixa de ser organizada em função da ansiedade e passa a ser sustentada por escolhas mais firmes, possíveis e coerentes ao longo do tempo.
Onde você está no processo e o que isso pede
A ansiedade pode se apresentar em diferentes intensidades ao longo da vida. Pensando nisso, quero partilhar com você o que percebi ser recorrente ao longo de quase uma década atuando no tratamento da ansiedade. Não se trata de fases rígidas nem necessariamente lineares, mas funcionam como um mapa clínico que ajuda a se localizar no próprio processo.
A busca por psicoterapia costuma aparecer, na maioria das vezes, quando a ansiedade já se tornou insustentável. Nesta fase, o corpo assume quase todo o comando. Os sintomas são intensos: coração acelerado, falta de ar, sensação de descontrole, pensamentos em espiral e dificuldade real de raciocinar. Aqui, a pessoa não “pensa errado”; ela mal consegue pensar. Logo, o que essa fase pede não é mudança de hábitos nem aprofundamento em autoconhecimento, mas estabilização. Avaliação psiquiátrica, psicoeducação inicial, ambientes mais seguros e redução de estímulos são fundamentais. O foco é aliviar os sintomas físicos e restabelecer o mínimo de estabilidade fisiológica, para que a pessoa volte a conseguir estar presente e raciocinar com clareza.
Com o corpo respondendo melhor, os sintomas mais extremos começam a ceder. O sono melhora um pouco, a respiração se regula, e a ansiedade ainda existe, mas já não vem acompanhada daquela sensação constante de colapso iminente. Aqui, o processo passa a pedir estratégias básicas de regulação emocional e organização da rotina. A pessoa começa a diferenciar pensamentos de fatos, percebe o que ajuda e o que piora, e sai gradualmente do modo de sobrevivência. A mente “ventila”. A capacidade de pensar, avaliar e escolher começa a retornar.
Com maior estabilidade, torna-se possível reconhecer padrões, reações automáticas, medos antigos e repetições. Muitas vezes, entram em cena histórias do passado, feridas, crenças e estratégias que um dia ajudaram, mas hoje já não funcionam e trazem prejuízo. Nesta etapa, o trabalho psicoterapêutico aprofunda a compreensão da relação entre corpo e alma, das potências da alma, dos vícios e das virtudes. Há mais clareza e uma presença ainda incipiente, mas real. O autoconhecimento ganha densidade, sempre sustentado por acompanhamento clínico.
E, como já vimos, entender a própria ansiedade e a si mesmo não é suficiente no tratamento. É preciso sair da teoria e colocar em prática. Aqui acontece uma mudança importante: a pessoa deixa de ser apenas personagem da própria história e começa a intervir nela. Ainda existe um espaço entre sentir e agir, mas já é possível perceber, refletir e fazer escolhas melhores. Fortalece-se a vontade, entra a disciplina, e surgem mudanças concretas de comportamento, perceptíveis inclusive para quem está ao redor. A vida não se torna fácil ou “bonita”, mas passa a ser vivida com mais presença diante das adversidades. Inicia-se uma exposição gradual ao que antes era evitado. O cotidiano começa a ser reorganizado com base em um novo eixo: razão prática, e não emoção.
Diante desses avanços, a ansiedade ainda aparece, mas já não governa. As escolhas se tornam mais firmes, a rotina mais ordenada, e a autonomia mais clara. O trabalho passa a ser de manutenção, revisão e ajustes finos. Virtudes como constância, prudência e fortaleza ganham espaço. Nesta fase, o processo psicoterapêutico pode ser espaçado. A pessoa já consegue caminhar com mais autonomia, sem perder o cuidado. É o que chamo de pré-alta.
Veja que, ao longo de todo esse caminho, a ansiedade não desaparece, mas perde definitivamente o posto de comandante. A pessoa reconhece e desenvolve recursos internos sólidos para lidar com adversidades, identifica sinais precoces de desorganização e sabe quando pedir ajuda. Isso também é maturidade. E então chega a alta da psicoterapia, o que não significa ausência de sofrimento, mas capacidade de condução. A vida segue sem bengala, com vigilância serena e constância.
Sabendo disso, me conta: em que momento do processo você está?
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