Hoje, a palavra “ansiedade” aparece em todo lugar. Tornou-se quase uma explicação universal para nomear o cansaço, a mente acelerada, a dificuldade de decidir, o medo constante de errar e até a sensação de estar sempre atrasado em relação à própria vida. No entanto, apesar de tão presente no vocabulário cotidiano, poucas pessoas conseguem responder com precisão a uma pergunta fundamental: o que é, afinal, a ansiedade? Trata-se apenas de uma emoção natural do ser humano? De uma doença que precisa ser tratada clinicamente? Ou de algo mais profundo, talvez um modo de viver que se instala pouco a pouco?
Essa não é uma pergunta teórica ou abstrata. A forma como respondemos a ela define diretamente o tipo de acompanhamento que a pessoa receberá e ajuda a explicar por que tantos tratamentos conseguem aliviar sintomas, mas não sustentam mudanças no longo prazo. Quando não se compreende a natureza da ansiedade, corre-se o risco de tratar apenas suas manifestações mais visíveis, deixando intacto o que realmente a mantém.
Por isso, antes de falar em técnicas, diagnósticos ou intervenções, é necessário voltar ao ponto de partida: entender o que está, de fato, em jogo quando falamos de ansiedade.
Neste artigo, você vai encontrar:
- Quando a ansiedade é uma emoção
- Quando a ansiedade se torna um quadro clínico
- Quando a ansiedade se enraíza em um modo de viver
- Por que tratar apenas a emoção não basta
- Um ponto de partida possível

Psicóloga com ampla experiência no tratamento de ansiedade
“Acredito que quem sofre com ansiedade não precisa de mais técnicas soltas, mas de um caminho que realmente sustente aquilo que já sabe.”
Dayse Hirakawa
Depoimentos reais de pessoas que já foram atendidas por mim
Quando a ansiedade é uma emoção
Toda pessoa experimenta ansiedade em algum grau ao longo da vida. Trata-se de uma experiência própria da condição humana. Ela não surge como um defeito do funcionamento psíquico, mas como uma resposta ligada à forma como o ser humano se relaciona com o tempo que ainda não chegou. A ansiedade está associada à capacidade humana de antecipar, avaliar e projetar-se para além do presente.
Do ponto de vista psicológico e neurobiológico, a ansiedade se vincula aos sistemas de antecipação e proteção do organismo. Diferente do medo, que responde a uma ameaça concreta e presente, ela se organiza em torno do possível. Manifesta-se quando a mente antecipa cenários futuros e prepara o corpo para agir diante de algo que ainda não aconteceu, mas é percebido como potencialmente perigoso.
Nesse sentido, a ansiedade é uma emoção funcional. Ela favorece planejamento, cautela, tomada de decisão e adaptação à realidade. Um certo grau de ansiedade ajuda o ser humano a avaliar riscos, organizar ações e evitar perigos reais. O problema, portanto, não está em sentir ansiedade.
A dificuldade começa quando esse sistema de alerta passa a reagir de forma desproporcional à realidade concreta. A ameaça existe, ou poderia existir, mas a resposta emocional se intensifica além do necessário. A tensão aumenta, a mente acelera, o corpo entra em estado de alerta com mais frequência do que a situação exige. Ainda assim, nesse nível, esse estado costuma oscilar: há momentos de alívio, períodos de maior tranquilidade e alguma capacidade de retomada do equilíbrio. A emoção já perdeu a medida, mas ainda não organiza toda a vida psíquica da pessoa. Trata-se de uma ansiedade desregulada, que já não cumpre adequadamente sua função original de proteção, mas que ainda não se impôs como eixo dominante da vida interior.
Ainda assim, é importante lembrar: nem toda ansiedade intensa ou desconfortável configura, automaticamente, um quadro patológico. Em muitos casos, trata-se de uma emoção que perdeu a medida, não de um transtorno instalado.
Quando a ansiedade se torna um quadro clínico
Enquanto na ansiedade emocional a pessoa ainda consegue se conduzir, mesmo com dificuldade, no quadro clínico o estado de alerta passa a se impor. Ele invade o sono, interfere no trabalho, compromete os vínculos e reduz significativamente a liberdade interna de escolha.
Um dos primeiros sinais de que a ansiedade deixou de ser apenas uma emoção que perdeu a medida é quando ela passa a organizar a vida psíquica da pessoa de forma persistente, independentemente do esforço consciente que ela faz para se acalmar ou se regular. Em termos mais simples, isso costuma aparecer quando a preocupação se torna quase constante, presente na maior parte dos dias, por meses. A mente dificilmente descansa, mesmo na ausência de problemas concretos. O pensamento antecipa cenários, revisa possibilidades e imagina desfechos negativos quase automaticamente.
A pessoa pode se sentir inquieta, cansada com facilidade, irritada sem saber exatamente por quê. Pode relatar “brancos” na mente, dificuldade de concentração ou a sensação de nunca conseguir “desligar”. O sono deixa de ser reparador e, aos poucos, esse estado passa a comprometer o convívio social, o desempenho profissional e a relação consigo mesma.
Nesses casos, o sofrimento deixa de ser apenas reacional ou circunstancial e passa a configurar um quadro que exige avaliação clínica cuidadosa, acompanhamento psicológico consistente e, em algumas situações, suporte medicamentoso. Isso não significa que uma ansiedade fora da medida não mereça cuidado. Mesmo quando não há um transtorno instalado, o acompanhamento psicológico pode ser fundamental para ajudar a pessoa a recuperar clareza, aprender a se conduzir e evitar que esse estado se agrave.
Ao mesmo tempo, nem sempre a própria pessoa consegue distinguir sozinha se está lidando com uma emoção desregulada ou com um quadro clínico instalado. Isso acontece porque a ansiedade, quando se intensifica, tende a confundir o julgamento, estreitar a percepção e normalizar estados de sofrimento prolongado. Por isso, a avaliação profissional não serve para “rotular”, mas para esclarecer o que está acontecendo e orientar o cuidado mais adequado.
Ansiedade como modo de viver
É comum que as pessoas procurem ajuda apenas quando o sofrimento já se tornou insustentável. Quando o cansaço é constante, o sono não repara, as relações se desgastam e a sensação de estar falhando em várias áreas da vida começa a se acumular. Muitas vezes, a busca por ajuda acontece quando o “álbum de prejuízos” já está quase completo. Mas a ansiedade raramente começa de forma abrupta.
Antes de se manifestar como uma emoção fora da medida ou como um quadro clínico instalado, a ansiedade costuma se formar lentamente, a partir de um modo de viver. Não surge de uma vez, nem de forma explícita. Vai se instalando quando a pessoa passa a viver quase sempre em função do que pode acontecer, do que precisa resolver, do que não pode dar errado.
Aos poucos, a vida começa a ser conduzida mais pela urgência e pela antecipação do futuro do que por escolhas conscientes no presente. A pessoa reage às demandas, apaga incêndios, tenta dar conta de tudo, mas já não sente que está, de fato, conduzindo a própria vida. Falta um eixo interno que organize prioridades, decisões e limites.
Nesse contexto, a ansiedade não aparece primeiro como um sintoma isolado. Ela passa a ser o pano de fundo constante da experiência de viver. A mente se mantém sempre projetada para frente, o corpo permanece em estado de prontidão, e o presente raramente é habitado com tranquilidade. Mesmo quando tudo parece “sob controle” por fora, por dentro há tensão, pressa e inquietação.
É aqui que a ansiedade deixa de ser apenas algo que a pessoa sente em determinados momentos e passa a estruturar a forma como ela vive, decide e se relaciona consigo mesma. A emoção não é mais a causa principal, mas o sinal de que algo mais profundo está desorganizado.
Mantido ao longo do tempo, esse modo de viver tende a intensificar a ansiedade, torná-la mais rígida e, em alguns casos, vir a se expressar clinicamente como um transtorno. Mas sua origem, muitas vezes, está antes disso: no modo como a pessoa aprendeu (ou não) a organizar a própria vida interior.
Importante ressaltar: eventos intensos podem desorganizar qualquer pessoa. No entanto, quando há uma vida interior mais integrada, com maior clareza de prioridades, capacidade de escolha e sustentação da vontade, o impacto tende a ser melhor elaborado e menos propenso à cronificação.
Por que tratar apenas a emoção não basta
Quando a ansiedade é reduzida ao nível da emoção, como se fosse apenas uma reação que perdeu a medida, o cuidado tende a se limitar ao seu ajuste. O foco se volta para reduzir o desconforto, aliviar a tensão e fazer a pessoa se sentir melhor. Nesse nível, a ansiedade é tratada como se bastasse regular o sentir para que o problema estivesse resolvido.
No entanto, quando a ansiedade é alimentada por um modo de viver desorganizado, esse alívio tende a ser temporário. A pessoa até se sente melhor por um período. O corpo relaxa, a mente desacelera, a tensão diminui. Mas, diante das exigências da vida, tudo tende a retornar. Isso acontece porque o sofrimento associado à ansiedade não está na emoção em si, mas em permitir que ela conduza a vida.
Emoções não são boas nem más. Elas fazem parte da experiência humana e não desaparecem por decreto, nem deveriam. Por isso, o trabalho psicoterapêutico não consiste em eliminar a ansiedade, mas em ajudar a pessoa a recuperar a capacidade de agir, decidir e sustentar escolhas mesmo quando a emoção está presente e se faz intensa, devolvendo à razão e à vontade o papel de condução da vida. Trata-se de aprender a agir, e não apenas reagir.
Do ponto de vista da psicologia e da neurociência, isso implica fortalecer processos de autorregulação, ampliar a capacidade de avaliação da realidade e reduzir a dominância dos sistemas automáticos de alerta. Do ponto de vista da filosofia aristotélico-tomista, trata-se de restaurar a ordem interior: a razão reconhece o que é bom, a vontade sustenta esse bem na prática, e as emoções passam a acompanhar (não a conduzir) esse movimento.
Quando essa ordem começa a ser reconstruída, a ansiedade fora da medida tende a perder força e a retomar sua função original. Não porque a pessoa deixou de sentir, mas porque deixou de viver apenas reagindo ao que sente. O futuro já não domina completamente o presente. A urgência cede espaço à direção. A vida deixa de ser conduzida apenas pelo medo do que pode dar errado ou por inseguranças constantes e passa a ser sustentada por escolhas mais firmes e conscientes.
Tratar a desordem da vida interior é, portanto, tratar a raiz da ansiedade. É isso que permite que a emoção volte a ocupar seu devido lugar: não como guia da existência, mas como parte integrada de uma vida mais ordenada, mais livre e possível de ser sustentada ao longo do tempo.
Um ponto de partida possível
Compreender a ansiedade dessa forma muda profundamente o cuidado. Não se trata de lutar contra emoções, nem de tentar silenciá-las a qualquer custo, mas de recuperar a condução da própria vida. Quando a ansiedade deixa de ser o centro organizador das decisões, ela perde força, ainda que continue existindo como parte da experiência humana.
O objetivo, portanto, não é eliminar o sentir, mas reordenar quem conduz. Emoções deixam de ocupar o lugar de comando, e a pessoa começa, pouco a pouco, a sustentar escolhas com mais clareza, presença e direção.
Para concluir, deixo três orientações simples e possíveis para quem deseja iniciar um movimento concreto de deixar de ser conduzido pelas emoções, especialmente pela ansiedade, e começar a recuperar a própria condução da vida.
Não repetirei recomendações amplamente conhecidas sobre alimentação, atividade física ou sono de forma genérica. O foco aqui são mudanças pequenas, práticas e sustentáveis, que podem ser iniciadas no cotidiano e que, quando mantidas, produzem efeito real na regulação emocional e na organização da vida interior.
1) Manter uma rotina de sono com fidelidade
Mais importante do que dormir “muitas horas” é respeitar o horário de despertar. Quando o despertador tocar, levante. Sem negociar cinco minutos, sem adiar, sem entrar em pequenas concessões. Tocou, acordou, espreguiçou, levantou.
Esse gesto simples treina algo fundamental: a capacidade de sustentar uma decisão mesmo diante do desconforto inicial. Do ponto de vista neurobiológico, isso fortalece circuitos de autorregulação e consolida novos padrões por meio da neuroplasticidade. Escorregou um dia? Retome no seguinte. Não do zero, mas do ponto em que está. O cérebro aprende por repetição, não por perfeição.
2) Delimitar o uso do celular com escolhas conscientes
O uso contínuo do celular, especialmente em momentos de cansaço, é altamente dopaminérgico e tende a intensificar a ansiedade no médio prazo. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de estabelecer limites claros e conscientes.
Escolha momentos específicos para usar o celular e evite o uso automático, especialmente à noite. No início, a escolha não trará prazer imediato, e isso é esperado. Aqui, o objetivo não é gratificação instantânea, mas coerência com um bem maior: clareza, presença e autodomínio. Estamos falando de um investimento a longo prazo, não de alívio momentâneo.
3) Reduzir excessos sem eliminar o prazer
Abrir mão do excesso não significa abolir o prazer, mas não se deixar conduzir por ele. Comer algo de que gosta, por exemplo, não exige exagero. Comer pouco, saborear, perceber o limite e respeitá-lo é um exercício concreto de condução pessoal.
Em níveis mais avançados, pode significar suportar um pouco da fome antes de comer, ou parar ao sentir saciedade, mesmo que o desejo peça mais. Não é sobre rigidez, mas de liberdade. Sobre não servir a todos os impulsos apenas porque eles aparecem.
Essas práticas não têm como objetivo “controlar emoções”, mas reeducar a forma de se conduzir diante delas. Ao longo do tempo, esse movimento devolve algo que a ansiedade costuma roubar: direção.
É desafiador, sim. Mas possível. E, quando sustentado, transforma mais do que qualquer alívio imediato. A partir daqui, o caminho deixa de ser apenas compreendido e começa, de fato, a ser vivido.
Leia também: “Já entendi minha ansiedade, mas não melhoro. Por que?”
Este texto se fundamenta na terapia cognitivo-comportamental, em achados da neurociência contemporânea e na antropologia filosófica aristotélico-tomista. Não se trata de uma revisão sistemática, mas de uma integração clínica desses referenciais.
Referências bibliográficas
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